Um Desafio de Cada Vez

by Charlles Nunes
(Angra dos Reis, RJ, Brasil)

O passo seguinte foi avisar os parentes, e providenciar a documentação para o translado do corpo até Volta Redonda, com uma parada em Angra dos Reis.

Fomos muito bem assistidos pela psicóloga do hospital, e o agente funerário foi tão solícito e cortês quanto pode.

Alguns de nossos parentes estavam a caminho do Serum, para fazer a doação de sangue. Em princípio pensei em deixá-los chegar ao destino, a fim de beneficiar outros que estivessem precisando, mas percebi que seria mais prudente contar com a presença deles para realizarmos todos os trâmites necessários naquela ocasião.

A Alice passou por fax os documentos de que precisávamos, e pegamos carona com o agente funerário rumo ao cartório para fazer o atestado de óbito.

A Martha me acompanhou enquanto o oficial preenchia o documento. Enquanto respondia às suas perguntas, uma a uma, lembrava-me do dia em que tirei a certidão de nascimento de cada um dos nossos filhos...

Ao término, ele passou a ler o documento em voz alta, para que confirmássemos a exatidão do mesmo. À medida em que lia, as lágrimas começaram a saltar dos meus olhos, e escorrer pela face. Aquilo sim, parecia uma sessão de tortura consentida!

Terminamos. Enxuguei as lágrimas, e voltamos ao hospital. A Martha ficou em companhia dos outros parentes, e partimos de novo, dessa vez rumo à funerária para a escolha da urna.

Quando minha sogra faleceu, coube ao meu cunhado Maurício e a mim essa penosa tarefa. Estávamos juntos de novo, mas dessa vez a situação era diferente...

Embora comprar um caixão seja uma tarefa difícil por natureza, naquele momento percebemos que a compra de um caixãozinho branco pode trazer uma dor infinitamente mais intensa. Aquela foi uma das tarefas mais tristes que já desempenhei – e que nunca havia imaginado fazer.

O reconhecimento da transitoriedade da vida em momentos como esse faz com que alguns assuntos sobre os quais discutimos no dia a dia - como descontos quando compramos mercadorias ou desentendimentos entre vizinhos - passem a ser completamente banais.

Ao chegarmos na funerária, minhas forças se exauriram. Meu cunhado entrou no bar ao lado para comprar um salgado, e tentei acompanhá-lo. Minha visão se turvou, peguei o salgado sem guardanapo e me sentei à entrada do bar.

Alguns homens que por ali bebiam ficaram observando minha atitude incomum, enquanto eu tentava empurrar goela abaixo aqueles pedaços de coxinha com refrigerante.

Respondi algumas perguntas necessárias, mas que pareceram extremamente difíceis: “Qual é a altura da criança?” “O que vocês preferem sobre a tampa, um enfeite em forma de cruz ou da bíblia?” Por fim, combinarmos o preço, pagamos e finalizamos aquela árdua tarefa.

Enquanto voltávamos ao hospital, no carro do funcionário da funerária, senti vontade de agradecer aos profissionais que haviam nos atendido no Hospital Samci.

Liguei, mas ninguém atendeu ao telefone. Entretanto, o toque de espera foi um sinal de que dias melhores estavam por vir. Era uma música conhecida, cuja letra dizia...

Para ser feliz é preciso crer
Nesse céu azul, na imensidão,
É fazer das estrelas, estrelas a mais,
E do pranto uma canção!
Há um mundo bem melhor
Todo feito pra você,
É um mundo pequenino
Que a ternura fez!

Essa letra fez-me recordar de um programa que assistia quando criança. E a esperança de um ‘mundo melhor’ era exatamente o que eu precisava naquele momento!

Como acontece com qualquer pessoa que tenha perdido um ente querido, fiquei atordoado por algum tempo. Mesmo assim, eu sabia que teria muitas tarefas a cumprir, decisões a tomar, pessoas com as quais conversar e consolar. Mas no fundo mesmo o que eu mais queria era simplesmente...

Descansar.

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