Pronto, Baby!

by Charlles Nunes
(Angra dos Reis, RJ, Brasil)

Às duas da manhã haviam nos informado que o quadro da Poli permanecia ?estável?. Havíamos dormido na casa da Fátima, após passarmos a madrugada de quinta para sexta cuidando da Poli.

Na manhã seguinte, acordamos tarde. Pedi à Fátima o número do telefone do hospital, e ela veio com uma agenda aberta. Eu li na parte de baixo da página: Prontobaby.

Os olhos da Martha se encheram de lágrimas: "Pronto, baby! É isso. Você não entendeu? Pronto, baby!" Abraçamos-nos, e terminei de teclar os números...

Eram nove e trinta e sete da manhã de sábado, 30 de outubro de 2010 quando ligamos para a UTI do hospital. Desta vez, alguém passou o telefone ao médico, que me disse em tom de alarme:

-- É melhor o senhor vir pra cá urgente, que o quadro dela está muito grave!!!

Senti um baque no peito. Respirei fundo, e comentei com as duas que achava que tudo já havia terminado. (Quando estávamos no quarto, pediram-nos que saíssemos para ajustar uma sonda. Por que precisaríam dos pais por perto, num momento de urgência?)

Calcei os sapatos como pude, e fomos para o hospital, cada um de nós apoiadomparado emmpor um dos ombros de nossa amiga Fátima...

As ruas pareceram mais largas, as esquinas mais distantes, e o caminho parecia não mais ter fim. Por fim, chegamos ao hospital.

A Fátima ficou no segundo andar, enquanto a Martha e eu subimos para a UTI, no quarto andar.

Entrei sozinho naquele ambiente amplo, repleto de macas, com alguns pais e mães balançando seus filhinhos no colo... A Martha preferiu aguardar do lado de fora.

Logo ao entrar, percebi que haviam fechado a cortina por todos os lados da maca onde a Poli estava. A tristeza estava estampada no rosto dos acompanhantes das demais crianças... Nosso anjo havia partido desse mundo às nove e vinte daquela manhã.

Ao abrir a cortina azul-clara pelo lado da parede, vi duas ou três enfermeiras com os olhos rasos d?água, cuidando carinhosamente do corpo da Poli. A expressão daquele rostinho angelical era de paz, como de alguém que finalmente havia encontrado o caminho de volta ao lar...

Em seguida, o médico chegou ofegante, lamentando-se por não haverem conseguido salvá-la. Dei-lhe um abraço, e agradeci, afirmando que sabia que haviam feito tudo o que podiam para ajudá-la. Respirei fundo novamente, e saí para dar a notícia para a Martha...

Ao abrir a porta, não pronunciei qualquer palavra. Apenas abri os braços e a abracei minha pequena guerreira com todo o amor que pude reunir.

Continuamos em silêncio por alguns instantes, e ela perguntou: "Aconteceu?!" Fiz que sim com a cabeça, e nos pusemos a chorar...

Enquanto caminhava pela UTI, era nítida a expressão de compaixão e empatia com a qual aqueles pais me olhavam. Alguns acenavam com a cabeça, ninguém pronunciava qualquer palavra. Pareciam querer compartilhar um pouco da minha dor, torná-la mais amena, mais suportável. Como estavam todos empenhados na cura de seus pequeninos, presenciei um espírito de amor e de solidariedade como nunca antes havia sentido na vida.


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