Os Três Filhos da Mãe

Calma! Essa é apenas uma homenagem a uma mulher maravilhosa que meus irmãos e eu tivemos a sorte de chamar... de MÃE!

Eu sou o Charlles, irmão do Cássio e da Suzana. Eles podem querer me matar pelo título e pela carona nos textos deles. Não tô nem aí...

Os dois me fizeram chorar com o que escreveram! ;-)

TEXTO 1: AS CARTAS QUE EU NÃO MANDAMOS
(DO IRMÃO MAIS VELHO)

Já disse algumas vezes que minha mãe me ensinou um monte de coisas. Acho até que ela me ensinou a ser eu e, assim, sou uma continuação do que ela foi. Isso é bom, espero que eu não termine em mim mesmo, que também haja alguém para dar continuidade ao que sou.

Tenho algumas falhas que merecem um puxão de orelha e sempre sei quando estou fazendo algo errado, pois tenho como padrão o que ela faria. E posso imaginar o seu olhar de reprovação quando deixo a desejar em algum quesito.

Depois que ela faleceu, remexendo seu espólio (sempre quis encontrar uma oportunidade para usar essa palavra!!) encontrei alguns escritos e na época redigi uma carta. Uma carta que não mandei. Ela não me reprovaria por isso, porque o que encontrei foi justamente uma carta que ela também não mandou… mas talvez ela me reprovasse por torná-la pública.

Paciência, vamos juntos, mãe, eu com minha carta e em seguida você com a sua!

Minha carta - Volta Redonda/RJ, 28 de Outubro de 2000

Vossa Senhoria

Antônio Francisco Neto – Prefeito da Cidade de Volta Redonda

     Gostaria que esta carta tivesse um caráter informal, como a que um amigo endereça a outro, sem medo de externar sentimentos nem receio de ser mal interpretado. Ela trata de como aprendemos, eu e minha família, a reconhecer uma verdade que nos foi ensinada “por preceito e pelo exemplo”.

     Sábado, ao chegar à clínica onde minha mãe fôra internada momentos antes, recebi a triste notícia de seu falecimento. Durante as 24 horas seguintes, entre o turbilhão de coisas que se têm para resolver, aprendi um pouco sobre a minha cidade, sobre as pessoas que vivem aqui e gostaria de expressar minha gratidão pelo tratamento que minha família e eu recebemos. Não quero espalhar louros sobre trabalhos ou pessoas, mesmo porque nem me lembro o nome da maioria delas, mas simplesmente agradecer sensibilizado pelo apoio recebido dos irmãos voltarredondenses naquele momento.

     Gostaria de começar citando que fomos tratados com dignidade e respeito em quaisquer que fossem os lugares onde precisamos comparecer. Tanto o funcionário da funerária municipal quanto o da capela mortuária dispensaram toda a atenção que precisamos, ainda que fosse perto das 23:00h. Digo o mesmo em relação à mocinha que nos atendeu no cartório, em pleno domingo. Com as orientações que nos passaram pudemos administrar a situação sem perder o controle.

As pessoas que nos atenderam na clínica também nos olhavam nos olhos e partilharam da nossa grande perda. Gostaria de reconhecer também o bom trabalho que foi realizado com a construção da Capela Mortuária. A localização facilita grandemente o acesso de quem vem de qualquer ponto da cidade e a estrutura nos acolhe e conforta. É um local onde podemos receber dignamente os amigos que vêm prestar a última homenagem àqueles que amamos e se vão.

Todos, enfim, do primeiro ao último cidadão da cidade com quem mantivemos contato naquela ocasião demonstraram-se verdadeiros AMIGOS, daqueles que se revelam nos momentos mais difíceis da batalha – a todos eles nosso muito obrigado.

     Organizando os pertences que minha mãe deixara, encontrei uma carta endereçada a Volta Redonda. Essa carta foi escrita durante o tempo em que ela estava morando em Campo Grande/MS (de 1992 a 1999). Estava num caderno que trazia na primeira página, escrito em letras grandes “As cartas que não mandei”. E gostaria de passar uma cópia a vossas mãos, pois acredito que ela aprovaria o meu ato.

Mando uma cópia na caligrafia dela, da maneira como escreveu, para que essa cidade possa guardar, se assim achar por bem, o sentimento externado de uma “filha”. Filha que foi amada pelas pessoas maravilhosas desse lugar, filha que essa cidade acolheu e que agora guarda perpetuamente em seu seio.

A verdade que aprendemos é que nossa cidade é o melhor lugar do mundo. Por mais longe que estejamos temos a certeza de que ela será para sempre nossa casa. Creio que posso encerrar por aqui, desejando que nosso sentimento por esse lugar possa contagiar todos seus moradores – e que sejamos felizes.

Cassio Jr


Sua Carta - Campo Grande/MS, 9 de novembro de 1995.

Querida Volta Redonda

     “Cidade do Aço”, cidade bonita, cidade de todos, cidade minha. Eu amo você. Nas tuas ruas eu cresci (mas não muito), debaixo do teu céu eu fui feliz, entre tuas montanhas eu vivi protegida quase toda minha vida e sou muito grata por isso. Vivo na esperança de um dia poder voltar a ti, porque aí é o meu lugar. Sinto uma saudade danada de voce!

     Quero que me perdoe por ter te deixado um dia e que saiba que nunca te esqueci.

     Terra dos sonhos… gente chegando de todo lugar, inclusive meu pai que chegou em 1958. Cada um trazia consigo o coração cheio de esperança e você nunca decepcionou ninguém. Todos conseguiram prosperar – uns muito, outros pouco; mas todos melhoraram suas vidas. Povo forte como o aço que destila dos seus altos-fornos; povo quente, alegre e corajoso.

     Alguns reclamam, murmuram, falam mal, mas permanecem aí. Ir para onde se aí é o melhor lugar do mundo? Os poucos que saem um dia com certeza voltam ou então se lamentam de saudades pelo resto da vida. Não é o meu caso, porque certamente voltarei. Voltarei porque te amo.

Cacilda

Publicado por Cássio Jr. Nunes aos 22.03.2008

https://cassiojrnunes.wordpress.com/2008/03/22/as-cartas-que-nao-mandamos/

TEXTO 2: PEQUENA GIGANTE
(DA IRMÃ MAIS NOVA)

Ela nos ensinou a levantar a cabeça, a não ter medo de olhar nos olhos, nem de falar de igual para igual com qualquer pessoa, e de reconhecer a necessidade de sempre aprender mais.

Pé ante pé eu me levantava da cama e ia devagarinho, descobrir de onde vinha aquele barulhinho estranho de folhas de árvore caindo. Quando abria a porta, podia ver, à meia-luz da cozinha, uma figura magra e pequena debruçada sobre a mesa, passando páginas...

Lá estava ela, mergulhada nos livros, os mesmos livros repetidos que tantas vezes leu. Livros usados que comprava no sebo ou que emprestava de alguém.

Edições antigas que ela guardava como se fossem tesouros, e livros de família que pareciam mágicos pra mim.

Durante toda a infância eu me deparei com esta cena: minha mãe sentada, lendo e escrevendo, na sua pouca instrução, no seu infinito discernimento de mulher moldada pelas dificuldades da vida. E esta influência perene desperta grande gratidão em meu coração.

Ela era a sabedoria em pessoa. Seus lábios calavam o que os olhos insistiam em me dizer, e ainda hoje eu tento desvendar o que aquele olhar escondia.

O contato com a leitura e a escrita foi decisivo para nosso futuro, meu e de meus dois irmãos mais velhos. Nós nos libertamos de todo o estigma que as crianças da periferia carregam, fadadas a ser menos, simplesmente porque um sistema assim determinou.

Nossa mãe rompeu esta barreira para nós, e nos ensinou a levantar a cabeça, a não ter medo de olhar nos olhos, nem de falar de igual para igual com qualquer pessoa, e de reconhecer a necessidade de sempre aprender mais.

Hoje tento seguir seu exemplo, e exercer sobre meus filhos a mesma influência inspiradora da qual tive o privilégio de desfrutar.

Nesta tentativa de me igualar a ela é que descubro minha fraqueza. Ela que, com seus quatro anos de estudo regular, pôde transformar nossa vida para sempre com seu gosto pela leitura, sua capacidade de raciocínio, seu domínio impressionante da lógica e da coerência textual quase instintivas, me presenteava muito mais com livros do que com brinquedos.

Eu com minha cara feia, que esperava mais uma boneca... Jamais poderia medir o tamanho daquele gigante que chamávamos de mãe.

Ela se foi e deixou um legado do qual temo não dar conta: passar para meus filhos os valores e as prioridades que a mim foram deixados.

E o que me faz vacilar é reconhecer que o efeito do meu exemplo terá neles a mesma força que o dela sobre mim.

Pequena em sua estatura, gigante em sua sapiência, passou pela minha existência sempre despertando em mim algo de grande, maior que eu mesma, porque ela assim me enxergava, posto que me amava.

E se eu, em minha fraqueza, conseguir alcançar metade de tudo o que ela ensinou, tudo o que fez e tudo o que amou, terei cumprido com honra minha missão de mãe.

Publicado no livro 'Pretextos do Coração', de Suzana Nunes.

TEXTO 3: DO IRMÃO DO MEIO (EU)
MULHERES DE AÇO

Sou de Volta Redonda, a capital brasileira do aço. Ao menos foi isso o que cresci ouvindo.

Em nossa cidade, o que não tem ‘miner’ ou ‘sider’ no nome, tem ‘aço’: Voltaço, Votoraço, Cooperaço, Tintaço, Torcida Mulheraço.

Por falar nisso, uma das mulheres de aço que ajudaram a edificar a cidade foi minha própria mãe. Se conheceram ainda recém-nascidas.

Aqui ela se casou, e teve três filhos. Viúva aos 32, precisou desenvolver nervos de aço.

Por toda a vida, ela nos ensinou a gostar de ler e de cantar. A ‘gostar’. Escrever ou cantar bem  mesmo – nenhum de nós jamais aprendeu!

Numa destas ocasiões, conhecemos o Gilberto Gil. Noutra, Chico Buarque, Milton Nascimento e até o Tom Jobim! Mas um de cada vez, é claro: não cabiam todos ao mesmo tempo no radinho lá de casa!

Naqueles dias difíceis, homens de aço apostavam na ciência – e as mulheres, na paciência! :)

Hoje em dia, muitos ainda apostam no aço, na Internet ou em qualquer coisa que traga lucro.

Se o ser humano pode aquecer até ao mais frio dos metais o que dizer de um semelhante?

Alguns dedicam seu tempo e talento aos negócios. Outros, a meninos e meninas. Minha mãe escolheu investir na criação dos filhos.

Acredito que ela ainda nos observe – mas do outro lado de um fino véu. Tal qual uma lâmina de aço afiada, ela provavelmente ainda muda tudo o que toca.

Quer conhecer a cidade que ela ajudou a construir? Bem-vindo(a)! Você vai encontrar gente inteligente, mulheres bonitas, boa música.. e Cultura Brasileira!

Caso decida fazer negócios conosco, pode contar com mãos de aço pra te ajudar.

E quando partir, alguns amigos estarão ansiosos pra te abraçar...

Afinal, ninguém é de ferro!

E POR ÚLTIMO, MAS NÃO MENOS IMPORTANTE...

Esse amor pelas palavras, pela leitura, pela escrita, não podia dar noutra. Segue o link do livro que escrevi em homenagem à NETA da Mãe. Boa leitura!

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