O Retorno das Dores

by Charlles Nunes
(Angra dos Reis, RJ, Brasil)

No final de setembro de 2010, a Poli começou a se queixar de dores no braço. Depois, na perna também. Surgiram algumas manchas no seu antebraço e pequenos nódulos no pescoço. Retornamos ao hematologista, à neuropediatra, e nos aconselharam a repetir toda a bateria de exames...

Assim, lá fomos nós, no dia 7 de outubro repetir todas as ressonâncias da coluna, o eletroencefalograma e o exame dos quatro membros.

Foi um dia exaustivo. Eu havia tido diarréia durante toda a madrugada, e no início da manhã, fui ao hospital. Fiquei em repouso tomando soro, e lá pelas nove já estava pronto para começar a jornada com a Poli.

Fomos ao primeiro hospital, no qual ela fez três ressonâncias da coluna. A seguir, nos dirigimos para o centro de Angra, onde mais exames a aguardavam. Dessa vez, foram os membros inferiores, superiores e o eletroencefalograma.

Depois voltamos para casa, para um merecido descanso.
No dia seguinte, fui trabalhar e a Poli passou o dia todo com dor de cabeça. (Não sabíamos, na época, que esse poderia ser um indício de que a leucemia já estava num estágio avançado...)

Ela havia apresentado alguns hematomas no corpo, o que nos deixou preocupados. Uma das manchas – a maior delas – se localizava no antebraço.

Além disso, a Poli começou a identificar nódulos em algumas partes do corpo, principalmente no pescoço. Sua barriga também parecia estar bastante inchada.

Já havia passado das dez da noite quando decidimos levá-la ao hospital. A dor de cabeça havia chegado a um grau insuportável. Liguei para meu amigo Júnior que prontamente nos levou ao hospital de Praia Brava.

Logo no primeiro exame, o médico constatou que seu fígado estava ‘palpável’. De imediato, o médico decidiu pela internação. Voltei para casa a fim de buscar algumas roupas, e a Martha passou com ela essa primeira noite no hospital.

Comecei a dormir uma noite em casa, outra no hospital. Na primeira internação, havíamos passado onze longos dias nesse ritmo, e imaginávamos que a jornada seria longa, mas nem tanto...

Do dia oito ao dia trinta, iríamos percorrer quatro hospitais, três unidades de terapia intensiva (UTI) e conheceríamos os dias mais difíceis de nossas vidas. Mas como não podíamos prever o futuro, fomos vivendo um dia de cada vez.

Deixamos nossos outros três filhos aos cuidados de uma grande amiga, e voltamos à rotina dos exames de sangue, das agulhadas, e nada de diagnóstico.

Ao ler no prontuário da Poliana ‘confirmar suspeita de leucopenia’, fiquei imaginando quanto tempo levaríamos para encontrar um diagnóstico preciso. Estávamos apreensivos, e quando ela nos perguntava: “Pai, o que é que eu tenho?” Um nó me subia à garganta por não saber como lhe responder...

Durante todo o processo, procuramos aguardar com paciência, planejando o que faríamos quando recebêssemos uma nova alta... Entre nossos planos, estava o tão sonhado par de patins que ela ganharia ao retornar para casa...

Na medida em que os dias foram passando, enquanto enfermeiras e médicos revezavam-se em turnos, começamos a ficar mais preocupados. O atendimento era muito bom, mas quando se está fora de casa já a algum tempo, não há acomodação que dê jeito. Além de presenciarmos o sofrimento da Poli, um de nós passava a noite no sofá de acompanhantes, pensando nos outros filhos que ficavam em casa... Aquilo era muito cansativo...

Num determinado dia, o médico de plantão me chamou e disse que estava estudando a possibilidade que a doença fosse toxoplasmose, devido ao surto que estava ocorrendo no bairro onde morávamos. Diante do quadro, pediu-me que torcesse para que o diagnóstico se confirmasse, e que não fosse uma “coisa pior”.

Com todas as letras, lhe perguntei se a tal ‘coisa pior’ poderia ser leucemia. Ele me surpreendeu com a resposta: “Você disse. Eu não disse isso. Não vamos preocupar a mãe, por enquanto...”

Fosse qual fosse a doença, o que eu mais queria era descobrir contra o que estávamos lutando. Angustiava-me ter de lutar contra um mal invisível, que aos poucos debilitava nossa filha...


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