O Planeta Azul

by Charlles Nunes
(Angra dos Reis, RJ, Brasil)

A maioria das famílias desenvolve, com o passar do tempo, algumas tradições que que são conhecidas apenas por seus próprios membros.

Certa vez, numa conversa sobre qual seria o local mais distante do universo, a opinião da família ficou dividida. Alguns elegeram o Planeta Verde, outros, o Planeta Azul.

Desde então, ao nos despedirmos com um beijo de boa-noite, sempre digo às crianças: “O pai te ama, daqui até o planeta verde... acrescentando sempre um veículo que demore bastante para chegar lá:


  • De pernilongo com a asa quebrada
  • De tartaruga com labirintite
  • De bicicleta sem rodas nem pedal

As crianças sempre retribuem à altura, inventando um veículo que seja ainda mais lento!

Quando eu dizia à Poli o quanto a amava (e ainda amo), e citava o planeta verde, ela me corrigia com apenas uma palavra: azul.

Em nossa última conversa – durante a transferência do quarto particular para a Unidade de Terapia Intensiva no Prontobaby – a cena se repetiu. Enquanto as enfermeiras transportavam a maca, curvei-me e sussurrei, enquanto acariciava seus cabelos: “O papai te ama, daqui até o planeta... verde.” Mesmo sem condições de abrir os olhos, ela sussurrou de volta: “Azul.”

Continuei: “Qual fica mais longe, o verde ou o azul?” Ela respondeu com convicção: “É o mesmo planeta. Você é que fala errado...”
Dei-lhe um beijo, e falei: “Pode ir tranqüila, Poli. Sei que a gente vai se encontrar de novo...”
E lá se vão sete meses desde que nosso anjinho partiu.

De vez em quando, me pego pensando no Planeta em que todos aqueles que nos antecederam devem habitar. Penso também em quantos conceitos equivocados devo ter sobre as pessoas, sobre esse vasto universo, e em quantas oportunidades perco de ficar calado ou mesmo de partilhar uma palavra de conforto...

Fará alguma diferença se o tal planeta for verde, azul, vermelho ou amarelo? Na verdade, já não me importo tanto com sua cor ou localização. Em meio a tantas incertezas da vida, o que mais desejo é manter acesa a esperança de um dia reencontrar aqueles aos quais tanto amei nessa Terra.

Quando essa hora chegar, a primeira coisa que farei é procurar aqueles olhinhos brilhantes, aquela risada contagiante... e vou correndo em direção ao meu grilinho falante!

De novo, estarei de mãos vazias. De novo, daremos aquele abraço gostoso. Ela vai me contar as novidades do lado de lá e eu lhe contarei o que mudou do lado de cá...

E correremos juntos, de mãos dadas, muitas e muitas vezes, pelo restante da eternidade.

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