O Importante é Existir
23 de junho 2011, por Charlles Nunes

Ser parte das minorias nunca foi tarefa fácil. Principalmente quando se torce pelo pior time do mundo...

O Importante é Existir

Hoje acordei meio nostálgico. Ao arrancar a folhinha do calendário, o número me lembrou de minha avó. Deixe-me contar a história...

A velhinha tinha a mania de inovar e, no meu aniversário de 7 anos, quis me fazer uma surpresa. Mesmo sem entender nada de futebol, decidiu me presentear com uma camisa.

Recorreu ao meu pai que, por ironia do destino, torcia pelo pior time do mundo: o Íbis, de Pernambuco. O que tornava a tarefa de encontrar uma camisa do clube mais difícil do que achar remela no olho mágico.

Resultado: minha avó comprou um pedaço de pano preto, outro vermelho, e fez a camisa. Alguns colegas a confundiram com a do Flamengo, o que me deu a oportunidade de explicar várias vezes a diferença entre os dois, com ares de entendido de futebol. Minha avó só errou num detalhe: em plena época em que os camelôs se esbaldavam de vender a camisa dez da seleção (por influência do Zico ou do Pelé), eu saía na rua com um baita número 23 estampado nas costas.

Com o tempo, a camisa me rendeu muitas alegrias. A cada vez que a vestia, vovó ficava sorridente, como se fosse meu aniversário. No dia do seu funeral, fiz questão de ir vestido a caráter, mesmo com um leve cheirinho de naftalina.

Por causa de minha avó, comecei a simpatizar com as minorias. Aos poucos, fui me tornando observador dos detalhes. Pensei em praticar fotografia, mas meu daltonismo foi uma pedra no caminho. Como me tornaria um bom fotógrafo, sem distinguir as cores? Na época do lambe-lambe, em que as fotos eram todas em preto e branco, saber as cores não era essencial. Mas na era digital, eu seria um verdadeiro desastre.

Por conta da tal camisa, cresci fanático por futebol. No dia do pagamento, ia logo separando o dinheiro do ingresso, e tirava da gaveta meu amuleto do Íbis. Como em nossa cidade temos apenas um estádio, virei freguês. Ali, conheci muitos jogadores que antes via só pela televisão. E passei a conhecer também o pessoal da bilheteria.

Melhor: de tanto comprar o ingresso no mesmo guichê, acabei conhecendo o bilheteiro. ‘Conhecendo’ é força de expressão. De tanto ver sua mão pela janelinha, passei a imaginar que ele deveria ser um cara legal, daqueles que falam apenas o necessário. Ao me estender o bilhete com o troco, fazia questão de dizer: ‘tenha uma boa partida’.

Se ele pensava que eu iria entrar em campo com os jogadores, eu tinha certeza. Dentro do estádio, eu gritava o jogo inteiro. Xingava o juiz e sua genitora – com todo respeito, e nem me lembrava do quanto tinha pago pelo ingresso.

Nunca liguei para o resultado dos jogos. Caso contrário, morreria de infarto, ou não seria torcedor do Íbis. O que vale é estar ali, vibrando com a galera, sendo mais um na multidão. Pulsando vivo. Como diz o slogan do clube, “o importante não é competir, mas existir”.

Semana passada, ao comprar o ingresso, vi uma mão diferente a me estender o bilhete pela janelinha. O homem não falou ‘tenha uma boa partida’, e passei o jogo inteiro pensando no destino do antigo bilheteiro.

Será que tirou férias? Trocou de profissão? Se aposentou? Se nos encontrarmos na rua, vamos passar um pelo outro como completos desconhecidos. Talvez eu o reconheça no mercado, se observar bem a mão das pessoas na seção de frutas e verduras.

Mas logo me flagro em meu desejo egoísta. Quem sabe ele tenha finalmente algumas tardes livres para brincar com a netinha, ou torcer pelo time dele também.

Será que tem família? Não sei. Nesses anos em que passei apressado pelo guichê, nunca tive tempo para perguntar esse tipo de coisa.

E se ele tiver morrido? Ou pior, dado cabo da própria vida? Às vezes, uma pessoa comete loucuras, quando pensa que está sozinha no mundo...

Se todos os bilheteiros se juntassem, teriam uma força de expressão maior. Deixariam de ser uma mão anônima a estender um bilhete inanimado. Sempre atrás dos guichês, não fazem passeata, não chamam a atenção do congresso nacional, não têm sequer um dia dedicado a eles.

Aposto que a maioria dos torcedores nem notou sua falta. Talvez eu tenha notado por passar sempre pelo mesmo guichê. Tomara que meu amigo esteja numa condição melhor, e que esteja desfrutando a vida a seu próprio modo. Nesses anos todos, ele conquistou meu respeito por desempenhar bem sua função. Agora, outro está em seu lugar, e o mundo segue girando...

Tive uma ideia: vou procurar a administração do estádio, e perguntar o telefone do antigo bilheteiro. Quem sabe eu possa visitá-lo, conhecer sua família, e presentear meu amigo com uma camisa do seu time favorito?

E vou lhe pregar uma peça. Em homenagem à minha avó, vou costurar nas costas da camisa um baita número vinte e três!

* Caso fictício

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