Nossos Dias em Barra Mansa

by Charlles Nunes
(Angra dos Reis, RJ, Brasil)

Ao chegarmos à Casa de Saúde Santa Maria, fomos muito bem atendidos. Tivemos a grata satisfação de encontrar o médico que havia cuidado dos nossos outros três filhos quando eram bem pequenos, o Dr. Hamilton. Ele era um dos sócios do hospital, e os outros profissionais também eram de ótima qualidade.

Após acomodarem a Poliana no quarto de isolamento (todo rodeado de vidro), nos orientaram sobre os procedimentos e demonstraram que a tratariam com todo o carinho e atenção. Desde aquele momento sentimos que estávamos em boas mãos, e eles mantiveram o mesmo grau de atendimento durante todo o tempo que estivemos lá.

Embora as instalações e a equipe fossem excelentes, havia algumas restrições para nós se tornaram novos desafios: a Poli não poderia escovar os dentes, tomar banho ou ir ao banheiro. Além disso, sua comida viria triturada, como papinha de neném.

A nova situação a deixou assustada, mas ficamos ali juntinhos, prontos para apoiá-la em seus momentos mais difíceis.

Como nos trouxeram um mini aparelho de DVD, comprei alguns filmes e desenhos animados para entretê-la naqueles longos dias em que ela não via sequer a luz do sol.

Assistimos algumas vezes ao desenho 'Feliz Aniversário, Charlie Brown', e lemos juntos alguns gibis. Mas o que mais nos aproximou como pai e filha foi vermos o filme ?Mary e Max? por duas vezes. O filme relata a correspondência entre uma menininha australiana e um homem americano, e revela a pequenez, a grandeza e muitos medos da alma humana.

No fim do filme, a menina percebe - já adulta - o quanto sua influência contribuiu para a felicidade daquele estranho que se tornou um amigo.

Nesse hospital, a Poli fez uma biópsia de um dos nódulos do pescoço. Ainda me lembro quando o Dr. Tito (um senhor idoso, bem simpático) entrou no quarto conversando sobre os times de futebol do Rio, e examinou a Poli.

Ele disse: "Você está com várias bolinhas no pescoço. Dá uma pra mim?"

A Poli sabia que não tinha escolha. Ela mencionou alguns dias depois que a ela só restava obedecer, pois ?se quisesse ou não fariam todos os exames do mesmo jeito!?

(Quando se ama alguém de todo o coração, como é duro ver essa pessoa sofrer...)

No dia em que fizeram a biópsia, eu havia retornado a Angra dos Reis para buscar o resultado dos exames. Era uma segunda-feira, e estava voltando do trabalho quando a Martha telefonou, informando-me de que naquela mesma noite seríamos transferidos para a capital, pois a Poli estava com uma doença chamada linfoma , e o tratamento mais adequado só poderia ser feito no Rio.

Anotei a palavra na agenda, para pesquisar na Internet. Como não queria assustar ninguém, escrevi ao contrário: A-M-O-F-N-I-L.

Ao descobrir que era um tipo de câncer que se manifesta no sangue, percebi que precisávamos tratar o assunto com naturalidade. (Como mencionei, um dos médicos havia preferido nem sequer mencionar a palavra ?leucemia? na minha frente!)

Conversando com minha irmã a respeito, ela mencionou várias doenças que já haviam sido tratadas de forma preconceituosa ao longo da História, como a lepra na antiguidade (hanseníase, hoje em dia), tuberculose no século XVIII, etc.

Se por um lado queríamos obter mais informações seguras sobre a doença ? sem nos furtarmos a encarar a realidade ? por outro decidimos evitar especulações. Assim, combinamos em família que quando as pessoas nos perguntassem sobre o assunto, diríamos que era uma ?doença do sangue?, e que os médicos estavam pesquisando os detalhes...


AnteriorÍndiceSeguinte

Click here to post comments

Join in and write your own page! It's easy to do. How? Simply click here to return to Simplesmente Poliana.