Despedida

by Charlles Nunes
(Angra dos Reis, RJ, Brasil)

Durante a primeira madrugada de internação no Hospital Prontobaby, passamos todo o tempo ao lado da Poli, fazendo carinho em seu rosto, costas, pernas, braços, barriga.

Enquanto a Martha lhe fazia carinho, eu continuava abanando seu corpinho.

Sua única alimentação no dia anterior havia sido aquelechurro que comprei perto do hospital. Quando o jantar chegou, ela não estava mais em condições de se alimentar...

Perto da meia-noite ela vomitou bastante. Minutos mais tarde, vomitou outra vez. Fui correndo chamar a enfermeira, pois dessa vez formou-se um pequeno coágulo em seu olho esquerdo.

Ela estava inchada, pois havia tomado muitos medicamentos, e seus rins não funcionavam mais a contento. A enfermeira ensinou à Martha como fazer a análise da urina, e ficamos atentos, para coletá-la em um recipiente. Da primeira vez, coletamos 180 ml. Da segunda, apenas 80 ml.

Daí em diante, a solução era foi posicionar uma sonda. Tivemos que sair da sala para o procedimento. Quando estamos numa condição de extrema fragilidade, não ousamos questionar...

O Dr. Daniel chegou bem cedinho. Havia vindo substituir o Dr. Paulo Ivo, que viajara para participar de um congresso no exterior.

Analisou cuidadosamente o caso, conversou conosco, receitou novos medicamentos para normalizar o funcionamento dos rins . Para nós, era muito difícil ver nossa pequena princesa retendo líquido por todo o corpo...

Recebemos a visita de uma representante do hemocentro, que veio trazer as remessas de sangue e plaquetas para uma transfusão. Conversou conosco sobre a necessidade de encontrarmos doadores para repor o sangue utilizado.

Ela se mostrou bastante sensível à nossa condição, deixando claro que não se tratava de um obrigação, mas apenas uma forma de continuarem a prestar o serviço a outros pacientes.

Entrei logo em contato com alguns parentes e amigos, que se prontificaram a fazer a doação no dia seguinte.
Quase no fim da tarde, a Poli começou a perder vagamente a consciência. (Em respeito a todos os que vivenciamos esse momento, não acrescentarei qualquer detalhe a respeito...)

A situação foi se complicando até o ponto que chamei o médico no corredor, e disse-lhe que ela precisava de um atendimento de emergência. Ele viu o quadro, manteve a calma, e informou às enfermeiras que ela seria transferida para a UTI imediatamente.

Aí, começou a correria. Corre daqui, corre dali, não
encontravam o aparelho de respiração artificial, e nós ali, naquele sentimento de total impotência. (O médico enfatizou a necessidade do equipamento ser mantido ali perto.)

Por fim, colocaram-lhe a máscara, transferiram-na para a maca, e saímos todos, a Poli, a Martha, eu, as enfermeiras e o médico, rumo à UTI. Entramos no elevador e descemos do quinto para o quarto andar.

Ao lado da Poli, percebi que ela ia aos poucos perdendo a consciência. Sussurrei-lhe o quanto a amava, e reafirmei que ela poderia ‘ir’ tranqüila, pois um dia estaríamos juntos novamente. Palavras não podem descrever o que sentimos naquele momento. Eu sabia que estava vivendo a despedida mais dura de toda a minha vida...

Quando a porta da UTI se fechou, senti a dor da perda que – penso eu - somente um pai ou mãe poderão compreender. Abracei a Martha e falei baixinho:

--Estamos perdendo nossa filha, Amor...


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