Compreendendo a Morte
22 de janeiro de 2011, por Charlles Nunes

Comentários

Compreender a morte é um processo contínuo.

Limitados por nossa forma de contar o tempo e de mensurar o espaço, ficamos enclausurados às nossas percepções das verdades com as quais convivemos.

A atitude de cada um em relação ao assunto baseia-se em seu próprio conjunto de crenças. Para alguns, ela representa uma passagem; para outros, um destino final. A continuação versus o fim. Alguns acabam tateando em meio à confusão justamente na hora em que precisam de mais apoio.

Decidi abordar o tema por acreditar que pessoas sensatas podem se beneficiar dialogando sobre qualquer assunto – inclusive sobre a morte. Ao fazê-lo, sinto-me como um viajante que se orienta pelas estrelas enquanto aguarda a luz do dia para distinguir novos pontos de referência.

Além disso, amigos que participaram do funeral de nossa filha – falecida aos nove anos – disseram que sua perspectiva sobre o assunto foi ampliada. Um deles comentou:

“Não sei se vou conseguir expressar com as palavras certas, mas quero te dizer uma coisa... Minha perspectiva mudou. Antes, eu tinha verdadeiro pavor só de pensar em morrer. Hoje eu não tenho mais.

Ao ver sua filha no caixão, e a atitude de vocês ali, tranqüilos, eu percebi que ela – a essência dela – não estava mais ali. Aquele era apenas o corpo. Senti que ela já estava num outro lugar. E com certeza, mais feliz do que aqui.”

Assim, compartilho algumas idéias e experiências que representam minha percepção sobre a morte. Vamos juntos nessa pequena viagem. É bom estar em sua companhia...

Crescendo e Aprendendo com a Morte

Conviver desde cedo com a morte pode trazer das duas uma: trauma ou entendimento. Durante a maior parte da infância, morei perto do cemitério. ‘Perto’ é força de expressão. De nossa casa avistávamos o caixão sendo velado. Em dias de velório, minha mãe fechava a porta da cozinha, e precisava manter a lâmpada acesa.

Além da própria rua, o cemitério era nosso playground. Ali, podíamos brincar de pique-esconde, nadar num riacho, passear pelos morros, caçar passarinhos, e como suprema prova de coragem, visitar uma casinha de ossos. Ela era enterrada pela metade no chão, e tinha apenas uma janela. Nosso desafio era abrir a janela, prender a respiração, olhar aquele amontoado de ossos por alguns segundos, e passar a vez para o próximo garoto. (Moleque tem cada mania.)

Mas a empreitada que nos amedrontava mesmo era roubar pombinhos à noite. Confesso que só entrei nessa uma vez, mas alguém quebrou uma telha e fez o maior barulho. Saímos em disparada morro abaixo.

Dito isso, talvez se explique um pouco porque me sinto em casa quando visito cemitérios...

Experiências com a Morte

Aos doze anos, eu morava com meu pai. Como ele era churrasqueiro, saíamos pela manhã para comprar a carne, ele preparava os churrascos à tarde, e vendíamos juntos à noite.

Naquela manhã, o sono me venceu e ele foi sozinho. Eu havia acordado tarde e estava ajudando uns colegas a reformar nosso campinho. De repente, chega um parente todo afobado em busca dos documentos do pai, pois ele havia “passado mal na rua” e estava no hospital.

Busquei os documentos, e fui para a casa de minha mãe. Eles estavam separados há dois meses. Em poucos dias, chegou a notícia: minha mãe ficou viúva aos trinta e dois anos.

Ficamos bem tristes, é claro. Mas levei uns três meses pra me dar conta que não veria mais meu pai nessa vida.

Depois de dezoito anos – quando eu já tinha trinta – minha mãe também partiu. Procurei suavizar a situação para nossos quatro filhos pequenos: “Galera, eu tenho uma notícia pra vocês: a vovó Cacilda foi para o céu.” Nossa filha mais velha – na época com cinco anos, respondeu na hora: “Pai, isso não tem graça nenhuma...”

Em 2010, passamos pelo maior dos desafios: nossa caçula, então com nove anos, teve leucemia. Em busca de um diagnóstico preciso, estivemos com ela internada em quatro hospitais, e o resultado foi uma fatalidade.

Fizemos o que estava ao nosso alcance, segundo os recursos e o conhecimento que tínhamos na época. Tivemos o apoio irrestrito de centenas de amigos, e decidi escrever um livro em sua homenagem, o que me ajudou bastante a encontrar o equilíbrio...

Um Evento, Muitos Significados

Muitos são os sentimentos de quem perde um ente querido. Alguns sentem remorso por não terem feito o que estava ao seu alcance. No meu caso, o maior desafio é saber que teremos que esperar mais do que gostaríamos para revê-la novamente.

Se por um lado o sentimento de perda nos faz sentir vontade de trocar absolutamente TUDO pela vida de quem tanto amamos, por outro a esperança bem fundamentada e o apoio dos amigos nos dão força para atravessar nosso deserto pessoal.

Criando Novas Referências

Por que fazemos com tanta freqüência um juízo equivocado de pessoas, fatos e situações? Porque nossa percepção da realidade nem sempre corresponde à realidade em si.

Por exemplo, se durante uma cerimônia de casamento você presenciar a mãe da noiva chorando, qual será sua conclusão? O que representam as lágrimas: realização ou remorso, felicidade ou alegria?

Construímos algumas de nossas crenças – e fazemos algumas escolhas – com base em referências, sejam elas herdadas por nossos pais ou por influência da sociedade na qual vivemos. Hábitos comuns numa região podem causar estranheza num outro extremo do país. Com o tempo e o convívio, nos acostumamos aos poucos com culturas e valores alternativos.

Existe uma outra classe de valores bastante específica: os dogmas. São verdades que têm como referência uma fonte – a nosso modo de ver – irrefutável. Podem chegar a nós por revelação divina ou por uma interpretação particular das Escrituras. De qualquer modo, não admitem contestação. Ao menos, pública.

Mas no íntimo de cada um, naqueles momentos de sobriedade em que fazemos a nós mesmos as perguntas mais profundas sobre a existência humana, existe sempre espaço para uma nova inserção.

Nessa busca, descobri perspectivas que orientam e fortalecem minha fé. Que nutrem minha esperança e trazem de volta o desejo de viver à altura de reencontrar aqueles entes queridos que se foram. Eis algumas delas:

  1. Se a morte é o oposto da vida, uma será sempre a negação da outra. Se essa representa a beleza, aquela, a feiúra. Essa, a alegria, aquela, a tristeza. Mas ao considerar a morte como parte integrante da vida, torna-se possível que as duas coexistam num mesmo plano.

  2. Mesmo sem conhecer todos os detalhes, tenho motivos para crer que o estado de quem deixa essa vida pode ser de paz, harmonia e felicidade. Em especial quando se trata de uma criança que parte dessa vida num estado de inocência.

  3. Jesus Cristo fez muito mais por nossa felicidade – no presente e no porvir – do que somos capazes de compreender nessa vida. Seja lá qual for nossa crença, num determinado momento teremos a capacidade de ver com transparência suficiente a fim de compreendermos a plenitude da verdade. Ele compreende nossa atual cegueira.
Minha conclusão sobre a esperança da vida após a morte faz eco às palavras de Cora Coralina, renomada escritora que publicou seu primeiro livro aos 76 anos de idade:
“Creio na solidariedade humana, na superação dos erros e angústias do presente. Aprendi que mais vale lutar do que recolher tudo fácil. Antes acreditar do que duvidar."

Considerar o assunto pode ser um grande passo para quem deseja fazer as pazes com a vida.

Comentários sobre 'Compreendendo a Morte'

1. Charlles

A eminência da morte e sua concretização faz com que todos os nossos dogmas sejam jogados ao léu. Enquanto eles flutuam, nós nos desesperamos e perdemos todas as nossas referências.

Depois desta etapa, percebemos que não podemos viver sem nossas crenças, pois elas fazem parte de nós, são verdadeiramente aquilo que nos constitui como indivíduos. Então, passamos a recolhê-las, uma a uma, no ar, como quem tenta pegar borboletas.

Às vezes dá trabalho reconstruir a própria fé.Para uns leva pouquíssimo tempo, para outros um pouco mais. Mas este momento de crise é o que fundamenta aquilo que acreditamos. É o que nos ajuda a reconhecer quem realmente somos.

Hoje eu sei no que acredito, de que maneira acredito, e porque escolho continuar acreditando. Suzana Nunes



2. Oi, Charlles

Tenho visitado seu sítio, de vez em quando.

Às vezes, passamos por esperiências, que naquele momento, são: ruins, desagradáveis, tristes, etc. O fato é que não entendemos, queremos saber o porque; no entanto continuamos inconformados.

Acho que posso entender a sua perda, se podemos dizer que a morte é uma perda, em 2001 perdi meu pai , e durante muito tempo não me conformei, hoje gosto de lembrar dele, embora ainda sinto sua falta.

Interessante falar disso, porque há dois anos conheci uma família, e certa ocasião fui junto com meu filho mais novo almoçar em sua casa, e na sal havia um mural com várias fotos, pessoas diversas criancas, adultos, lugares e também uma foto de um bebê gordinho sorindo de bruço com aparencia forte; e perguntei quem é esse lindinho, o que com orgulho o pai me disse é nosso filho que morreu, com alegria em seus olhos.

Parece que para mim morte era sinônimo de tristeza, mas apartir daquele momento passou a ter um outro significado, o de alegria pelo filho que nasceu, pelos momentos que aquela pode dizer "nosso filho".

Em Atos 12, encontramos o relato que o Rei Herodos mandou matar a Tiago, e depois resolveu prender e matar Pedro, porém Deus enviou um anjo e livrou Pedro. Poderíamos perguntar: por que não livrou a ambos? Pedro era mais importante? Entendo que Deus sabe de todas as coisas, simplesmente assim.

Desculpe por nãso ser de escrever, mas quero um dia saber escrever, e compartilhar esperiências, alegrias, amizades...

Você pode colocar qualquer texto que eu vier a escrever, online. Moro em São Paulo capital, sou casado e tenho 55 anos, 1 cachorra, que se chama Fridah, o xodó da família, 4 filhos, Aaron, Sarah, Rebeca e Joseph.

Pelo seu sítio, vé que você é professor de inglês, interessante é que gosto de estudar hebraico e grego, porém inglês não consigo, existe alguma fórmula, dica, para mudar esse pensamento e de verdade?

Um abração my friend. Jorge(Resposta)



3. Charlles

Quando fui na sala do treinamento saber se iriam mandar a van para a doação de sangue e fiquei sabendo do que aconteceu eu lembrei dessa música que coloquei a baixo, nunca lhe mostrei pois achava que não era o momento.

Ao ler esse artigo ela me veio à memória "como o vento que não sabemos de onde vem mas que sempre leva algo a algum lugar..."

O Lado da Vida - Ana Paula Valadão

Existe um lugar nos meus sonhos
De onde ninguém partiu
Me pego as vezes lembrando
De como ele sorria, o que ela faria
Se ainda estivessem aqui
Desse lado da vida

Saudade, a vida fica um tanto vazia
E ninguém vai preencher esse lugar no meu coração
Eu queria, ah!, como eu queria
Que ninguém fosse embora daqui
Desse lado da vida

Parei de perguntar "porquê?"
Parei de debater com Deus
Esperança de ver meus amados
Me deu Ele é Deus, Ele é Deus

Saudade, a vida fica um tanto vazia
E ninguém vai preencher esse lugar no meu coração
Mas um dia, oh!, lindo dia
Acordar de manhã e rever
E abraçar, e abraçar
Passear de mãos dadas
Do outro lado da vida.

Patrícia Melo
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