Como Escrevi Um Livro em 10 Dias
27 de janeiro de 2011, por Charlles Nunes

Leia 'Heróis Anônimos'

No dia 10 de julho de 2009 ouvi pela Voz do Brasil uma notícia sobre o concurso ‘Literatura para Todos’. A chamada era mais ou menos assim:

O Ministério de Educação e Cultura está organizando o III Concurso Literatura para Todos’. O objetivo do concurso é criar um acervo literário para jovens e adultos em processo de alfabetização. As inscrições para participação no concurso encerram-se no próximo dia 20.
Aquela notícia me atingiu como um raio. Primeiro, porque tão logo tive contato com as obras de Paulo Freire, aprendi a amar a área de Educação de Jovens e Adultos, Segundo, porque era minha chance de criar algo que viesse a despertar nesse grupo o interesse pela leitura.

Naquela noite, fui descobrir quem era meu público alvo. Ao ler o artigo ‘Neoleitores no Brasil Alfabetizado’, fiquei surpreso ao descobrir que apenas 29% da população brasileira alcançou um nível de alfabetização que lhes permite ler e escrever sem restrições.

A autora define o neoleitor como o jovem, adulto ou idoso que está iniciando sua caminhada de leitor. Ela inicia seu artigo citando Moacyr Scliar:

‘Neoleitores’ é uma expressão que recupera a dignidade individual ao falar de uma possibilidade de renovação pessoal mediante a leitura. Neoleitores significam uma neocultura. Um neopaís, certamente melhor do que aquele que temos. Um país onde a literatura será para todos.

Por Onde Começar?

Decidido a encarar a empreitada, meu desafio seguinte era escolher o tema. Sobre qual assunto um neoleitor possivelmente gostaria de ler?

Lembrando-me de minhas próprias experiências no campo da leitura, cheguei à conclusão de que todos gostamos de nos identificar com os personagens nas histórias que ouvimos, lemos ou assistimos. Pensei que, salvo raras exceções, não seria comum encontrar um neoleitor exercendo a profissão de médico, juiz, advogado, engenheiro, etc.

Assim, comecei prestando uma homenagem aos próprios neoleitores, escrevendo uma crônica sobre as profissões que eles possivelmente estivessem exercendo.

Numa folha dividida em dezesseis partes, e uma profissão em cada retângulo e passei a anotar tudo o que me viesse à mente sobre cada uma.

Inclui minhas histórias pessoais, fosse no desempenho da própria profissão ou ao interagir com profissionais de cada área. Homenageei meu pai, que era churrasqueiro. Lembrei-me de um bom amigo coveiro. Revivi histórias que ouvi ainda criança, sobre as parteiras daquela época.

Um Período de Descobertas

A seguir, fiz uma pesquisa sobre as profissões na Internet. Sobre algumas delas, havia teses de mestrado muito bem elaboradas.

Ao ler sobre os lixeiros, aprendi um fenômeno surpreendente: a invisibilidade pública, que abrange a perda de identidade sofrida por profissionais que transitam em nossa sociedade completamente invisíveis aos olhos da população simplesmente pelo uniforme que usam. Descobri também que um cobrador de ônibus recebe, em média, dois cumprimentos por dia!

Ao ler sobre os camelôs, deparei-me com um movimento que sugeria a remoção de suas barracas para um local específico, com o objetivo de ‘limpar’ as ruas de São Paulo. O autor da tese a favor da permanência dos camelôes no centro da cidade revela verdades sobre as intenções subliminares de quem organizou o movimento. Verdades que não enxergamos ‘a olho nu’.

A pesquisa vai mais além, descrevendo a trajetória de quem sai do nordeste em busca de uma vida melhor e termina beirando a mendicância nas principais metrópoles do país.

Havia chegado a hora de escrever. A cada texto escrito, eu ligava para um amigo lá de Volta Redonda – minha cidade natal – e lia para ele o novo texto. Saber que alguém está pronto para nos ouvir e dar sugestões, tornar-se um grande incentivo num projeto como esse. ;-)

Procurei relacionar dados pesquisados com situações do dia-a-dia. Veja esse exemplo no parágrafo de abertura sobre do texto ‘Lixeiro – O Menestrel da Avenida’:

Segundo dados do IBGE , no Brasil são produzidos 2.643 quilos de lixo em apenas um minuto! Viu porque o coletor só passa correndo na sua rua?
Quando os quinze textos estavam prontos, busquei uma citação que fosse coerente com cada tema. Dei os últimos retoques no texto e, no início da tarde de 20 de julho entrei esbaforido na agência dos correios, com mais de nove mil palavras ainda quentinhas no envelope.

A Segunda Milha

Na véspera de Natal, veio a oportunidade de gravar o livro inteiro num estúdio profissional. Coloquei o livro à venda na Internet e os primeiros exemplares foram vendidos em Nova York e na Rússia. Meu amigo Wladimir – um cientista de apenas 26 anos – escreveu contando que havia ouvido o livro num vôo entre a Rússia e a Sibéria...

Que mundo maravilhoso esse em que vivemos!

Não sei o que o futuro nos reserva, mas escrever um livro em 10 dias, gravá-lo num estúdio perto de casa numa cidade do interior, vendê-lo para diversos países e saber que suas histórias são ouvidas no interior dos aviões, são idéias que há apenas alguns anos me pareciam completamente inconcebíveis.

Embora não tenha sido um dos vencedores do concurso, recebi o prêmio da realização. A caminhada foi mais importante do que o destino, pois pude comprovar que em 10 dias é possível criar algo que beneficie jovens e adultos em processo de alfabetização, assim como estrangeiros que estudam nosso idioma.

Antes de ler o próximo artigo, que tal conhecer o livro 'Heróis Anônimos' agora mesmo?

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