Churros

by Charlles Nunes
(Angra dos Reis, RJ, Brasil)

Depois que o Dr. Paulo Ivo assumiu o caso, fomos novamente transferidos. Desta vez, do Hospital Samci para o Prontobaby. Fizemos aquela última viagem de ambulância, e no fim da tarde de quinta-feira, 28 de outubro de 2011.

Ao chegarmos, a Poliana foi ficou numa enfermaria no andar térreo, em companhia de outras crianças, enquanto preparavam uma vaga para ela no quinto andar – destinado em parte aos pacientes que estavam em tratamento de quimioterapia.

Como fomos aconselhados a ficar perto do hospital mesmo após a alta (a fim de sermos atendidos prontamente em caso de febre), saí para procurar um apartamento para alugar.

Havia andado uma ou duas quadras quando avistei um carrinho de churros do outro lado da rua. A Poli adorava churros, e é óbvio que mudei meus planos. Comprei dois churros, e retornei imediatamente ao hospital.

A Poli estava sem comer a muitas horas, pois havia recebido uma transfusão de sangue até as duas da manhã, e às seis e meia do mesmo dia foi para o centro cirúrgico para o exame de medula óssea. Comer seu doce preferido seria como um manjar dos deuses!

Cheguei apressado ao hospital. No corredor que dava acesso à enfermaria, um garoto de três ou quatro anos percebeu o pacote na minha mão e perguntou o que era. “Uma surpresa!” – respondi.

Com a autorização do pai do menino, pedi-lhe que esperasse um pouquinho, e fui conversar com a Poli. Mal havia chegado até ela quando o garotinho foi chamado pelo médico e começou a gesticular em minha direção, apavorado. É claro que estava me avisando para entregar a surpresa que eu havia prometido!

Fui até ele, entreguei-lhe um saquinho vazio, e virei um dos churros devagarinho.

-- Segura firme, que vai cair a surpresa. Se cair mais de uma, você devolve para o tio...

Os olhos do menino estavam vidrados. Ele estava mais interessado na ‘supresa’ do que em ver o médico...
Terminada a operação, ele agarrou novamente a mão do pai e foi para sua consulta, contente da vida.

Retornando à enfermaria, entreguei o churro da Poli. Ela sentou-se na cama, começou a comer como quem delicia um manjar (apertou para que o doce de leite saísse com mais abundância), agradeceu e se deitou novamente, de olhos fechados.

Contei-lhe então o episódio sobre o garotinho, ao que ela ouviu atentamente. Quando terminei, ela abriu os olhos e perguntou bastante interessada:

-- Ele ficou feliz?

Respondi que sim, admirado por sua capacidade de pensar no bem-estar do próximo em condições tão adversas.

-- Ele vai ficar internado aqui também? – perguntou-me novamente, dessa vez de olhos fechados.

Respondi que não sabia, pois havia conversado pouco tempo com o pai do menino. Ela abriu bastante os olhos, como se fosse fazer uma pergunta muito importante, e continuou:

-- O pai dele ficou feliz?

Fiz que sim com a cabeça, pois as palavras já não me saíam pela boca – e passei a mão pelos cabelos dela.

Havia chegado a hora de subirmos para o quarto.

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Muitas vezes me pergunto o que me levou a escrever essa história. Dentre tantos motivos louváveis, um deles é para que aqueles que não tiveram o privilégio de conviver com a Poliana nesta vida, possam conhecer um pouco deste coração maravilhoso, e responder por si mesmos à pergunta que ela me fez:

-- Ele ficou feliz?


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