A Vida Pode Ser Bela

by Charlles Nunes
(Angra dos Reis, RJ, Brasil)

As crianças fazem geralmente perguntas difíceis de responder. Por sua vez, alguns adultos testam a paciência delas ao limite, seja apertando suas bochechas ou repetindo perguntas do tipo: “Você gosta mais do papai ou da mamãe?”

Numa daquelas ocasiões em que saí para buscar resultados de exames, a Poli fez um comentário com a Martha que demonstra a grandeza da sua percepção...

“Mãe, eu gosto muito quando você fica comigo porque você me dá banho, me faz carinho... Cuida de mim. Mas eu também gosto muito quando o papai fica comigo, porque ele me faz rir, faz palhaçadas, me deixa alegre.”

Quando a Martha me contou, meus olhos ficaram marejados, pois percebi que, mesmo com o coração partido, já havia brincado e dançado em três hospitais, com o objetivo de fazê-la feliz!

No hospital de Praia Brava o quarto era coletivo, e a porta do banheiro não tinha tranca. Quando ela ia ao banheiro, eu a ajudava carregando o suporte do soro, e ficava de guarda ao lado da porta.

Quando era minha vez de usar o banheiro, eu dizia que ela deveria ficar de guarda deitada na caminha dela mesmo, e que deveria proteger aquela porta ‘com o sacrifício da própria vida, se necessário’! Ela ria a cada vez...

Certa ocasião eu estava dançando e me contorcendo ao lado da cama dela, quando de repente a enfermeira abriu a porta. Rapidamente, endireitei o corpo e fiz uma cara de sério, olhando para a Poli. Como ela riu disso, ao contar o episódio para a mãe e os amigos...

Outro episódio que ela gostava de contar foi quando saímos juntos para comprar frango assado, numa manhã de sábado. No sábado anterior os frangos estavam pequenos, e custavam oito reais cada. Comprei dois.

Naquele dia, os frangos estavam bem maiores. Fiquei empolgado na chegada, e fui logo dizendo: “Me vê dois frangos desses aí!”

Ao perguntar o preço, fui informado que cada um custava doze reais.

Então, em voz um tanto mais baixa, corrigi o pedido: “Acho que um só já está de bom tamanho...”

Ao contar o caso, ela dava ênfase na autoridade com que eu havia feito o pedido, e me imitava, fazendo uma voz engraçada ao corrigir o pedido.

No intervalo entre uma internação e outra, Poli fez algumas conquistas. Uma delas, tomar banho sozinha.

Certa tarde, ela estava no banheiro, curtindo sua conquista, e nós todos esparramados pela casa. De repente, um baita grito!

Corremos todos para a porta do banheiro. A Martha entrou - ficamos esperando o veredito... brancos de susto...

-- O que foi, Poli?

-- Nada. Estava só testando pra ver se no banheiro dava eco!

Caimos na risada... Era nosso santo remédio!


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