90 Dias Sem a Poli

by Charlles Nunes
(Angra dos Reis, RJ, Brasil)

90 Dias Sem a Poli

Como muitos sabem, nossa família foi reduzida de seis para cinco pessoas recentemente. É incrível notar quantas vezes nos lembramos disso quando...


  • Viajamos de carro e ninguém fica sem cinto.
  • Nos sentamos pra jantar e uma cadeira fica vazia.
  • Entramos no ônibus e um de nós se senta sozinho.
  • Compramos uma pizza e a dividimos em seis pedaços.
  • Pegamos um menu e nos lembramos do cardápio do hospital.

A ajuda dos amigos para superar essa fase tem sido tão providencial quanto um gol marcado na final do campeonato. Ao término do expediente, costumo puxar assunto com um amigo... Que sempre me ouve com toda a paciência.

Ao ouvir a música ‘Here Comes the Sun’, dos Beattles, e ler a respeito de sua criação, fiquei admirado como ela descreve tanto a vida da Poli quanto nosso esperado reencontro: o sol brilhando depois de um longo e intenso inverno. Após ouvi-la repetidas vezes, cheguei até a dançar sozinho.

Minha esposa disse que a Poli continua tão presente quanto na época em que vivia conosco. Que agora temos um incentivo maior para vivermos à altura de chegar aonde ela já chegou. Concordo com ela.

Minha irmã, que continua nos ajudando, leu o artigo ‘Compreendendo a Morte’, e comentou:

“Charlles,
A eminência da morte e sua concretização faz com que todos os nossos dogmas sejam jogados ao léu. Enquanto eles flutuam, nós nos desesperamos e perdemos todas as nossas referências.
Depois desta etapa, percebemos que não podemos viver sem nossas crenças, pois elas fazem parte de nós, são verdadeiramente aquilo que nos constitui como indivíduos. Então, passamos a recolhê-las, uma a uma, no ar, como quem tenta pegar borboletas.
Às vezes dá trabalho reconstruir a própria fé.Para uns leva pouquíssimo tempo, para outros um pouco mais. Mas este momento de crise é o que fundamenta aquilo que acreditamos. É o que nos ajuda a reconhecer quem realmente somos.
Hoje eu sei no que acredito, de que maneira acredito, e porque escolho continuar acreditando.
Suzana.”

Por duas vezes, tive a alegria de sonhar com a Poli. Durante os sonhos, não conversamos, mas creio que com o passar do tempo terei esse privilégio.

Na primeira vez a vi descendo a rua, enquanto eu andava na direção contrário. Quando passamos um pelo outro, ela sorriu e continuou em frente. Me virei para vê-la mais um pouquinho, e à medida em que ela andava, meu coração se enchia de alegria. Interessante notar que todas as crianças podiam vê-la, mas apenas alguns adultos.

No segundo sonho estávamos sentados em família na hora do jantar. Eu não me cansava de olhar para seu rostinho iluminado e sorridente. Sabíamos que nossa família estava completa outra vez.

Quando me bate aquela vontade de chorar, fico esperando uma oportunidade para estar sozinho. Aí, aproveito para dar vazão aos meus sentimentos tanto pela Poli quanto por Deus e pela vida em geral.

Nesses momentos, a saudade vai apertando, apertando, até que a externo através das lágrimas. Depois, minha compreensão vai se ampliando, e passo a rir e a chorar ao mesmo tempo. No final, sempre consigo agradecer por toda essa experiência.

Quando a saudade aperta, me seguro para não beijar as fotos dela, mas confesso que converso como se ela estivesse me ouvindo. Quem vê essa cena nos filmes, pode até pensar que o personagem está ficando maluco... talvez esteja mesmo...
Alguns dos motivos pelos quais costumo agradecer são:

  1. A evolução da doença foi tão acelerada que nos poupou vivenciar todas as fases do tratamento.
  2. Alguns amigos demonstraram apoio irrestrito, adotando nossos outros filhos enquanto nos concentrávamos em ajudar a Poli.
  3. A saúde de nossos filhos tem sido excelente desde que nasceram.
  4. Tivemos muitas oportunidades de preparação para suportarmos esses momentos de adversidade.
  5. Nossa família tem uma fé vibrante de que nos encontraremos de novo após a morte.

Logo nos primeiros dias após o falecimento da Poli, ficou claro pra mim que se não começasse a escrever, acabaria enlouquecendo. Escrevi horas e horas sobre a vida dela, nossa luta contra a doença e como estamos procurando seguir adiante.

Durante todo o tratamento, nossa esperança era tão grande que a Poli seria curada, que nem sequer considerávamos outra hipótese. Hoje a situação mudou, mas posso afirmar que essa esperança continua mais viva do que nunca...

Apenas mudamos nosso foco.


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